Dizem que, quanto mais baixo for o centro de gravidade de um carro, melhor.
Eu também adoraria conseguir baixar um pouco o centro de gravidade do meu Roadster.
Só que fazer isso na prática não é nada fácil, porque é preciso encontrar um equilíbrio entre vários fatores.
Mesmo assim, manter o centro de gravidade baixo é um dos princípios básicos dos carros esportivos.
Pois bem, nosso encrenqueiro de plantão, aki, resolveu questionar essa ideia de que “quanto mais baixo o centro de gravidade, melhor”.
Isso vale para muita coisa: essa história de que “quanto mais, melhor” pode ser perigosa.
É importante olhar as coisas por vários ângulos e sempre se perguntar: “E se a gente levar isso longe demais?”
Bom…
No mangá Initial D dizem que, quanto mais baixo o centro de gravidade, melhor…
E parece que todos os especialistas dizem a mesma coisa…
Se todo mundo concorda, então só pode ser verdade…
…Mas é justamente contra esse tipo de raciocínio que estou alertando!
Muito bem, então.
Deixe o aki, que adora ser do contra, provar que não é bem assim.
Uma explicação inédita no mundo!
Por que um centro de gravidade mais baixo nem sempre é melhor.
Bom… provavelmente não é a primeira vez que alguém explica isso.

Vamos começar pelo esquema básico.
Os pneus, os braços da suspensão e a carroceria.

Numa suspensão de braços triangulares sobrepostos (duplo A), o centro de rolagem fica mais ou menos assim:

Quando o carro sofre uma aceleração lateral, a carroceria rola em torno do centro de rolagem.
Isso acontece porque há transferência de carga.
E, como a transferência de carga reduz a aderência total dos quatro pneus, em geral queremos minimizá-la.
A explicação que costumamos ouvir é mais ou menos esta:
Baixar o centro de gravidade reduz a transferência de carga.
Logo, quanto mais baixo o centro de gravidade, melhor.
…Parece convincente, não é?
Mas essa explicação é conveniente demais. Até suspeita.

Normalmente, quando você vai rebaixando o carro para diminuir a altura do centro de gravidade, chega uma hora em que a carroceria acaba beijando o chão. Aí não dá mais para baixar.
Mas acontece que…
Tem outro jeito.
Lembre-se: é importante olhar as coisas por vários ângulos e pensar fora da caixa.
Então, aqui vai a minha solução.

Cavei um buraco.
Eu sei, eu sei.
Parece ridículo.
Mas, tecnicamente, essa é uma maneira perfeitamente válida de baixar o centro de gravidade.
Então eu não disse nada de errado.
Só… por favor, não comecem a jogar pedras em mim ainda.
Se a gente parar para pensar, colocamos pesos embaixo da carroceria. Com isso, o centro de gravidade acabou ficando abaixo do nível do solo.
Você pode perguntar: “Quem é que aumentaria o peso do carro só para baixar o centro de gravidade?”
Ei, não me culpem.
Eu só disse que era para baixar o centro de gravidade.
Nunca disse que precisava fazer isso de maneira inteligente.
Agora vamos supor que fosse realmente possível baixar o centro de gravidade para abaixo do nível do solo.
A partir de certo ponto, continuar baixando o centro de gravidade acabaria aumentando a transferência de carga.
Pois é.
Se baixar demais, a transferência de carga começa a aumentar de novo.
Ou seja, não dá para dizer simplesmente: “Quanto mais baixo, melhor”.
Pronto.
Q.E.D.
É claro que isso não poderia acontecer no mundo real, então essa demonstração toda não serve para absolutamente nada.
E tem outra consequência interessante.
O sentido da rolagem da carroceria se inverteria.
Percebe o que acontece?
Você vira o volante para a direita, e o carro se inclina para a direita.
Normalmente, quando fazemos uma curva à direita, a carroceria se inclina para a esquerda.

O motivo é simples.
Agora o centro de gravidade está abaixo do centro de rolagem.
Não daria para construir um carro normal assim.
Mas, se alguém resolvesse construir de propósito um carro bem esquisito, seria possível.
Pense nas motos.
Numa curva à direita, elas se inclinam para a direita.
Com os barcos acontece a mesma coisa.
Com os aviões também.
Os carros é que são diferentes: normalmente se inclinam para o lado contrário ao da curva.
Se o centro de gravidade de um carro ficasse abaixo do centro de rolagem, ele passaria a se comportar mais como esses outros veículos.
Achei isso curioso.
Para falar a verdade…
Dei toda essa explicação só para chegar a esse ponto.
Se tudo isso arrancou um sorriso seu, já fico feliz.
Aliás, muita gente diz que, se a distância entre o centro de gravidade e o centro de rolagem chegar a zero, o carro deixa de rolar.
E é verdade.
Só que, a menos que o centro de gravidade também esteja ao nível do solo, ainda haverá transferência de carga, mesmo sem rolagem da carroceria.
Um carro que não rola simplesmente se comporta como um carro sem suspensão.
Com uma aceleração lateral suficientemente alta, ele ainda pode capotar, mesmo que a carroceria não esteja rolando.

Se, de alguma forma, você construísse um carro em que
altura do centro de gravidade = altura do centro de rolagem = altura do solo,
virar o volante não provocaria nenhuma transferência de carga.
Nesse caso, o carro também não poderia capotar, já que não haveria transferência de carga.
É claro que um carro assim não pode existir.
Mesmo assim…
Não consigo deixar de imaginar como seria dirigir uma coisa dessas.
É só rebaixar um Roadster, cavar um buraco e prender uns pesos embaixo da carroceria.
Alguém devia experimentar.
(Eu não.)
Pelo visto, até pensar livremente tem seus limites.
E é por isso que nem sempre dá para dizer: “Quanto mais, melhor”.
Ou talvez…
este artigo inteiro tenha sido só uma desculpa para eu ficar pensando numa coisa completamente absurda.